sábado, 5 de maio de 2012

Mesmo que lá não a toquem


– A música é uma coisa apavorante. O que é? Eu não entendo. O que a música faz?
– Exalta a alma!
– Bobagem! Ao ouvir uma marcha, sua alma se exalta? Não, marcha. Se é uma valsa, você dança. Na missa, você comunga. A música tem o poder de fazer a pessoa entender o que passa na cabeça de um compositor. O ouvinte não tem escolha. É como hipnotismo. Então... O que eu tinha em mente quando compus isso? Um homem está tentando chegar à sua amada. Sua carruagem quebrou na chuva. As rodas presas na lama. Ela não vai esperar mais.
– Este é o ruído de sua agitação. "E assim acontece" diz a música "não como está habituado não como costuma pensar, mas assim é".
                                                                                                                                        (Immortal Beloved)


     O texto acima me prendeu de tal modo, que me obrigou a voltar essa cena por diversas vezes, só para reler a melhor definição do que a música é para nós, seres humanos.
    Foi isto o que sempre senti. Sempre me senti sendo levada pela música, ela tem um poder sobre mim. Em meus momentos em que sou minha própria companhia, a música grita, conversa, dança, chora, sorri, briga comigo.
    As músicas que possuem letra, pode contar algo de nossa vida, pode também contar algo que gostaríamos que fosse parte da nossa vida. E as que aproveitam apenas da melodia, essas podem ser as mais apavorantes, porque de certo modo ela nos conta uma história sem nos contar.
    O compositor faz o que quer conosco sem dizer uma só palavra. Eu já entendi tantas histórias - pouco me importa meu acertos e erros - mas há uma música que por mais que eu me esforce, não entendo sua história. Por isso, por direito, é minha história.
   A música a seguir será a do meu casamento e, também, a do meu enterro. Mesmo que lá não a toquem.



terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O dia em que o gato quase explodiu

O gato cinza lindo e bravo quase explodiu. 
Enquanto estou fora de casa fazendo sei lá o que, meu irmão me liga e conta que o gato quase explodiu, não necessariamente nessas palavras. O fato é que o danado entrou pelo motor do carro e meteu a cabeça no farol. Vê se pode?!
Daí meu irmãozinho começou a ouvir miados que não conseguia identificar de onde viam. Daqui a pouco aparece o final do rabinho do gato pra lá e pra cá.
Então inicia-se o desespero. Abre capô do carro. Olha para todos os lados. E, finalmente, encontrou o gatinho preso no farol. E quem disse que esse gato arisco deixava alguém tirá-lo de lá?
Foi necessário chamar o Luciano, meu padastro, que é taxista e estava em serviço. Quando o Luciano chegou o gato continuava na mesma, "riscando fósforos", tentando arranhar e tudo mais. Enfim... depois de muito suor, o coitadinho se entregou e tornou o serviço de meu padastro mais fácil. 

Se dizem que há males que vem para o bem... o gato desde então não corre quando nos aproximamos e nem nos ameça com aqueles ruídos felino.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Grandesalgumacoisa

Eu não tenho palavras para expressar o que sinto, elas fogem de mim o tempo todo. Acho que por isso que leio tanto. Eu usurpo por alguns instantes o que por direito de subconsciência deveria ser meu, mas que outro me roubou. Não posso admitir nenhuma fuga. 
O tempo todo sou roubada, sou furtada. Alguns chamado de Grandesalgumacoisa retira meus sentimentos e os vomitam em palavras. São vômitos em papéis, em fios, em violões, em asfaltos. 
Confesso que jamais irei denunciar, já pensei nisso, mas repensei, por isso mesmo não vou. Quando pondero sobre essa tamanha injustiça, me lembro das outras, daí fica tudo bem. 
O que mais espero, é um dia roubar as palavras de alguém. 


                          Enquanto isso, vou apreciando mais uns sentimentos roubados:





Metade 
Composição: Oswaldo Montenegro 

Que a força do medo que tenho 
Não me impeça de ver o que anseio. 

Que a morte de tudo em que acredito 
Não me tape os ouvidos e a boca 
Porque metade de mim é o que eu grito 
Mas a outra metade é silêncio. 

Que a música que ouço ao longe 
Seja linda ainda que tristeza 
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada 
Mesmo que distante 
Porque metade de mim é partida 
Mas a outra metade é saudade. 

Que as palavras que eu falo 
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor 
Apenas respeitadas 
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos 
Porque metade de mim é o que ouço 
Mas a outra metade é o que calo. 

Que essa minha vontade de ir embora 
Se transforme na calma e na paz que eu mereço 
Que essa tensão que me corrói por dentro 
Seja um dia recompensada 
Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão. 

Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável. 

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso 
Que eu me lembro ter dado na infância 
Por que metade de mim é a lembrança do que fui 
Mas a outra metade eu não sei. 

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria 
Pra me fazer aquietar o espírito 
E que o teu silêncio me fale cada vez mais 
Porque metade de mim é abrigo 
Mas a outra metade é cansaço. 

Que a arte nos aponte uma resposta 
Mesmo que ela não saiba 
E que ninguém a tente complicar 
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer 
Porque metade de mim é a platéia 
A outra metade é a canção. 

E que a minha loucura seja perdoada 
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.